quarta-feira, 25 de abril de 2012

Liliana




      Hoje de manhã, num centro comercial, voltei a vê-la. Devem já ter passado uns dez anos. Foi como antes, como se nada tivesse mudado. Voltei a sentir as pernas a tremer. Fiquei durante muito tempo a olhar o vazio e a recordar. Ela vivia na casa em frente. Passava as tardes, depois do colégio, a passear pelo jardim. Nunca vinha para a rua brincar conosco, nunca ninguém ia visitá-la. À noite, da minha janela, costumava observá-la horas a fio, enquanto lia. Amei-a em segredo ao longo da minha infância e adolescência, sem nunca termos trocado uma palavra. Não soube sequer o seu nome até o dia em que ouvi alguém dizer que se chamava Liliana. Nessa mesma noite, escrevi ao longo do muro do seu jardim “AMO-TE LILIANA”, nas letras maiores que fui capaz de desenhar. Na tarde seguinte, as persianas do seu quarto foram fechadas. E assim se mantiveram durante semanas. Fui para Lisboa estudar. Quando regressei, nas férias, a casa tinha sido vendida. Quando visito os meus pais, evito ainda olhar para o feio condomínio que construíram no seu lugar.

     
      Hoje de manhã, num centro comercial, vi-o. Devem ter passado uns dez anos, mas a sensação foi a mesma. Falta de ar, tal como antes. Lembrei-me das noites a fio em que o espiava pela janela do meu quarto enquanto fingia ler. Ele vivia num daqueles prédios estreitos com a fachada suja, em frente à nossa casa. Durante anos esperei que reparasse em mim. Amei-o em segredo ao longo da minha infância e adolescência, sem nunca termos trocado uma palavra. Recordo bem o dia em que descobri que gostava de outra. Foi pouco antes de nos termos mudado. Quando imaginava a nossa casa a ser demolida, via as cruéis palavras escritas no muro a desaparecerem. Nunca sequer cheguei a saber quem era a Liliana.

CLEMENTE, Cláudia. "Liliana", in: A Fábrica da Noite. Ed. Ulisseia, 2010


Não é fofo demais? S2

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